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Batman #39 | Superfriends part 3 | A vez da Mulher Maravilha | Com spoilers

ATENÇÃO: O conteúdo a seguir contém spoiler. Confira no título da postagem se você está apto e/ou quer lê-la.


Se tem um quadrinho que eu tenho acompanhado no Renascimento, é o título principal do Batman. Tenho gostado bastante. Quinze dias atrás, publiquei aqui uma resenha do Batman #38, que é só uma das melhores histórias do Batman escritas nos últimos tempos. O Batman #39 mesmo é a continuação da história Superfriends, que em dois volumes, explorou de forma sensacional a relação entre Batman e Superman, com a Selina e a Lois de bônus. Foram histórias divertidas com algumas cenas muito tocantes. Eu tenho certeza que é uma fase que vai ficar marcada no que já foi publicado do morcegão.

E aí veio a terceira parte. Com a Mulher Maravilha. E eu tenho que dizer que quase tudo nessa história me incomodou.

A começar pela caracterização da Mulher Maravilha. 

Diana chamando o Batman com o bat-sinal. Porque claro que assim é bem mais divertido.

Veja bem, eu amo a Mulher Maravilha. Mas essa aqui não parece, para mim, a Mulher Maravilha. Ela não age como a Mulher Maravilha, ela não fala como a Mulher Maravilha. Até visualmente eu achei estranho (e, tirando a Mulher Maravilha, eu não tenho nada contra a arte dessa quadrinho em particular).

Nada soa natural. A relação dela com o Bruce não parece genuína. 

Nem se compara com o que foi traçado da relação entre Batman e Superman nas duas primeiras histórias de Superfriends. Muito menos com as relações entre Batman, Superman, Mulher Maravilha e Lois Lane em Better Together, primeira história da trindade no Renascimento, em Trinity #1 (sobre o qual eu vou falar assim que a Panini resolver colocar nas bancas por aqui).

[Bruce: Esse não sou eu, Diana. Não faço esse tipo de coisa. E você trouxe um porco? / Um javali.]
Diana dando uma aula de etiqueta em Trinity #1. Não se esqueçam do javali em uma visita de cortesia.

E depois o plot. A premissa é a seguinte: o Gentle Man é o guardião de que impede que o nosso mundo seja atacado pelas Hordas de Gehenna, formadas pelos pecados dos homens. Ou seja, infinitas hordas. Pelo que eu entendi, é outra dimensão, e ele é a única coisa que impede que esses monstros cheguem ao nosso mundo. Anos atrás, Batman e Mulher Maravilha lutaram ao lado de Gentle Man e viram como o trabalho dele é pesado. Então, antes que a Zatanna (❤) os puxasse de volta, eles ofereceram um dia de liberdade a Gentle Man, em que lutariam em seu lugar enquanto ele aproveitaria aqui na Terra.

Orelhinhas pontudas são tendência para quem vai fatiar monstros.

Eu não me importo muito com o que acontece nesse reino distante. Basicamente, Batman e Mulher Maravilha fatiando monstros. Dá pra dizer, ok, o objetivo da história não era esse. Os monstros são só pano de fundo para trabalhar a relação do Bruce e da Diana. Mas como eu falei antes, essa interação entre eles é muito artificial. Então pra mim não funciona.

[Você a ama. Vai casar com ela. E aqui está você, sem ela. Comigo]
Mulher Maravilha aleatoriamente seduzindo enquanto o Batman toma uma surra do outro lado. Sério, Diana? E o Steve?

Eu sou super favorável à tensão Batman/Mulher Maravilha. E entendo ser algo para fazer parte de uma história que vai explorar a relação dos dois. Mas aqui ficou forçado.

Como não se apaixonar pela Selina em cada número, sério? Eu ainda não descobri. Bruce, seu idiota.

Enquanto isso, Selina guia Gentle Man em seu guia de folga. E descobre que o tempo passa diferente nas duas dimensões. O que para ela era um dia, para Bruce e Diana seriam anos. Perfeito, não?

Você é daqui? Sua esposa é daqui? / Sim. / Quando foi a última vez que você a viu? / Quando eu saí para as hordas. / E quando foi isso? / Um ano. Um pouco mais, talvez. / Mas Batman disse... ele achou... Você não estava lutando havia milhares de anos? / Sim. Milhares de anos. O tempo é diferente lá. Você não envelhece. Mas o tempo... passa. / Mas... / Eles... Já tem algumas horas que eles foram... Quanto tempo...? ]

Dez anos. Dez fucking anos. Dez anos longe de alguém já parece bastante suficiente para estragar um relacionamento, não? Dez anos sozinho com a Mulher Maravilha... pois é. 

Quando tudo isso começou, quando o Batman pediu a Mulher Gato em casamento e resolveu tentar ser feliz, todos sabíamos que poderia acabar mal. Sabíamos que tinham boas chances de isso acabar mal.

Isso é ok. Embora eu realmente preferisse que eles continuassem juntos, eu entendo as várias razões pelas quais poderia não dar certo. E, na verdade, os dois personagens entendem também. Pra mim, o problema não é esse.

O problema é como aconteceu. Achei aleatório, forçado e sem um contexto bem construído. Vamos lá, não sabemos se realmente vai acabar por aí. Tudo vai depender de como a sequência vai ser construída (desvantagens de resenhar um número de cada vez, como já falei). Mesmo o Bruce tendo feito isso:

Xingando Tom King mais do que mentalmente.

Não sabemos o que vai realmente acontecer. Parece que é só bait, só uma isca para atrair a atenção, talvez por ser um ship de muita gente.

Todavia, eu já achei a história em si ruim. Acabei com a sensação de que não aconteceu nada e que o roteirista simplesmente deixou o Batman e a Mulher Maravilha sozinhos por dez anos para eles poderem se pegar. 

Confesso que eu também me perdi um pouco no conceito, que eu não conheço. Lá embaixo eu postei os tweets do King em que ele explica de onde vieram as referências para construir esse mundo doido aí. Mas eu fiquei um pouco confusa com algumas coisas (não sei se são tão relevantes assim):
  • Se a porta só funciona do nosso mundo para o outro, não o contrário, os monstros podem passar como?
  • Como Gentle Man conseguiu avisar que queria uma folga?
  • Como o Batman topou tudo isso sem nem saber como é que este outro plano funcionava?
  • Se o Gentle Man estava lutando há pouco mais de um ano, como ele conheceu Batman e Mulher Maravilha há anos atrás, como foi dito no começo da história?

Outros leitores, mais experientes do que eu, leram essa história e lembraram imediatamente da Action Comics #761

Já dá para ver que a Lois não ficou muito feliz com a chegada da Mulher Maravilha. Mas é fácil se identificar com ela nessa história.

Essa foi uma história publicada em janeiro de 2000, com roteiro de Joe Kelly e traço de German Garcia. E acontece basicamente a mesma coisa, só que com o Superman (parece que não é fácil ter a Mulher Maravilha como colega de trabalho).

Thor, recebendo Superman e Mulher Maravilha.

Nessa história, Lois e Clark estão (recém?)casados. Superman e Mulher Maravilha são convocados para ajudar a defender Asgard. O tempo dos deuses, claro, é diferente do tempo dos humanos. E a missão rola por MUITO tempo. Tempo suficiente para o Clark começar a esquecer a Lois e reparar na Diana.

Aparentemente, Diana tem cheiro de orquídeas e fogo. Pode deixar livre a imaginação.

E então, a batalha final se aproxima. E Clark e Diana percebem que é a última noite que têm juntos. E aí, claro, acontece isso:

BFFs. E eu estava preocupada com os dez anos de distância entre a gata e o morcego.

[Eu... eu não posso, Diana. Bobo, não é? Mesmo que ela já tenha... partido... mil anos e um mundo para trás... Lois continua sendo a única. / Não, não é bobo. É perfeito. É certo. Extremamente certo. / Obrigado, Diana... por sempre ser minha amiga. Eu te amo. / Eu também te amo... Clark]

O legal é que a história inteira trabalha as inseguranças da Lois. Parece que ela fez alguma besteira de que Clark não sabe e também sente que não merece o homem de aço. Ela se sente, o que é totalmente compreensível, ofuscada pela Mulher Maravilha no começo da história. Ou seja, no fim a história serviu para mostrar como o Clark realmente amava a Lois e para reforçar a amizade dele com Diana. E termina assim.

You're still the one tocando ao fundo.

Na verdade, sendo sincera, eu gostei dessa história. Eu não estava acompanhando a Action Comics nem os quadrinhos do Superman no fim dos anos 1990/início dos anos 2000, então eu não tenho como saber, exatamente, o que isso significava naquele contexto (como eu comentei aqui sobre Batman #39 no contexto do que tem sido feito em Batman Renascimento). Mas fez sentido pra mim. A progressão pareceu mais natural e as relações mais orgânicas. E como eu imagino que estava sendo construída ali era a relação Lois & Clark, achei que coube bem. 

Claro que quase tudo que tem sido feito aqui até agora tem trabalhado para construir a relação do Bruce com a Selina também. Mas Superfriends, pra mim — levando em consideração o que eu vi nos dois primeiros números — tem mostrado a dinâmica dessas relações, traçado uma base sólida para elas. E eu não vi isso em Superfriends part 3.

E claro, rolou uma polêmica por Tom King ter feito algo tão parecido com uma história já publicada. Ele respondeu no Twitter, dizendo que não tinha ideia, que nunca tinha lido a Action Comics #761.






"Isso vem me enlouquecendo. Então, ontem @bullthesis apontou que o plot de Batman #39 lembra a Action Comics #761 de Kelly e Garcia, um volume que eu nunca tinha lido... até hoje. Agora. E @bullthesis está certo." 

"Vocês sabem, minha história surgiu da combinação entre o reino atemporal de demônios de Magik, de L. Simonson, Thor #362 de W. Simonson e Death takes a Holiday. Eu sabia que não era a ideia mais original no estilo Morrinson, mas me pareceu um bom espaço para um trabalho emocional que eu tinha planejado."

"Então quando/se você ler Batman #39, saiba que definitivamente Kelly e Garcia fizeram isso primeiro e muito bem. I recomendo muito que você leia a Action Comics #761 e julgue por você mesmo. E, finalmente, ainda estou muito orgulhoso do que eu fiz com o conceito e espero que você aproveite também. Obrigado."

"Não sei se ajuda, mas estou paranoico com essa merda, então aqui estou eu baixando a edição hoje."


Sendo sincera, isso foi o que menos me incomodou. Estou mais esperando para ver o que ele vai fazer com essa história na próxima.

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